segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

MILK

Ativista dos direitos gays, amigo, amante, político, inspiração, ícone... muitas são as expressões que poderiam descrever Havey Milk, o primeiro político abertamente gay dos Estados Unidos. Milk foi um dos precursores no ativismo gay no país, contrariando religiosos e conservadores, conseguindo aprovar as primeiras medidas anti discriminatórias, a partir da cidade de São Francisco, Califórnia. A vida anti discriminação, iniciada na famosa rua Castro, em São Francisco, hoje reduto de maioria gay, chega às telas do cinema pelo diretor Gus Van Sant.

De idosos a sindicatos de trabalhadores, da comunidade gay a donas de casa entediadas, Harvey Milk foi responsável por mudanças de pensamentos e comportamentos entre Estadunidenses, em se tratando de direitos humanos. O filme conta os últimos anos da vida de Milk, que buscando um propósito maior, muda-se de Nova Iorque para São Francisco com seu namorado, Scott Smith (interpretado por James Franco). Assim que chegam a cidade, abrem um negócio (Castro Cameras) e Milk dá inicio a uma verdadeira revolução na área. Ele vira então uma espécie de "prefeito" da rua e é a quem muitos recorrem quando alguma divergência ou confusão acontece. Surge então o político e ativista, com uma carreira curta, porém impactante.

Van Sant nos brinda com mais uma grande direção levando seu elenco a grandes atuações. Dentre estas atuações o grande destaque é a estonteante e convincente performance do ator Sean Penn que faz o personagem título do filme. Sem caricaturas ou gestos exagerados, Penn mostra-se um ator maduro e sem medo de papéis considerados mais "ousados". Ele representa o político astuto, o amante apaixonado, o homem carismático, tudo a seu tempo e sempre cativando o espectador em mais uma bela interpretação. Dentre o elenco, basicamente masculino, há que se destacar também as atuações de James Franco (o Harry Osborn da trilogia Spiderman) como o grande amor de Milk, do mexicano Diego Luna (Y Tu Mamá Tambien), de Emile Hirsh (Into the Wild), como um dos fiéis seguidores, e Josh Brolin (No Country for Old Man), como o também político Dan White. Todos os quatro tem atuações marcantes e convincentes, principalmente pela naturalidade que mostram em cena, como se fossem trechos extraídos de filmes documentais.

Em se tratando de cenas documentais, o filme mistura cenas recuperadas de São Francisco e programas de televisão, com outras criadas e envelhecidas para o filme com perfeição. Não se pode distinguir com precisão em vários momentos o que é antigo e o que é novo. Aqui o destaque destas imagens recuperadas são as cenas da cantora Anita Bryant. Anita não é, em nenhum momento, representada por nenhuma atriz. Todas as cenas em que aparecem foram inseridas a partir de materiais de documentários, noticiários e mesmo comerciais. Personagem importante na estória contada, Anita Bryant foi uma fervorosa oposicionista aos homossexuais em campanhas declaradas na década de 70. Em sua trajetória anti-gay, foi protagonista de uma famosa cena onde recebe uma torta na cara de um ativista gay, quando fazia mais um pronunciamento preconceituoso.

Ainda que tenha tido seu lançamento* nos Estados Unidos um pouco tardio para padrões competitivos (outubro de 2008), o filme já levou vários prêmios em diferentes categorias, como melhor ator (Sean Penn) e ator coadjuvante (Josh Brolin), direção (Gus Van Sant) e roteiro (Dustin Lance Black).

Van Sant conseguiu fazer um filme que prende a atenção do espectador, apesar da temática extremamente política, que para muitos é um tema arrastado e enfadonho. A curta trajetória política de Harvey Milk, é mostrada de forma leve, porém séria, divertida em alguns momentos sem ser caricata, romântica sem ser melosa. Trata-se de um filme que deve com certeza fazer parte da prateleira não só de instituições LGBT mas de qualquer um que se interessa pelo tema, ou simplesmente coleciona bons filmes.

*Estréia prevista em 6 de fevereiro de 2009 no Brasil

Originalmente publicado em http://www.aquirola.com.br/

sábado, 3 de janeiro de 2009

Shortbus


Quem assiste aos primeiros minutos do filme Shortbus, pode logo pensar que o que está por vir é um desfile de cenas de sexo despropositadas e sem contexto. A exploração do sexo e sua pura exposição. Porém, as primeiras cenas apenas nos apresentam os principais personagens e seus conflitos pessoais. Passamos a conhecer um universo que está muito próximo a nós e que por vezes ignoramos de forma consciente ou não.

Observamos James, seus desejos, dúvidas amorosas e sexuais e o sentido de sua própria vida, e ainda seu relacionamento com o namorado Jamie. Entramos na intimidade de Sofia, a terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo. Nos divertimos com Severin, a dominatrix com suas muitas aventuras e desventuras, que vira confidente de Sofia. Há ainda uma série de personagens secundários que ajudam a contar as estórias de amor, sexo e relacionamentos em tons que variam do dramático ao cômico.

No desenrolar da trama existe além das estórias dos personagens centrais, um universo de comportamentos, dramas, aflições e questionamentos sobre sexualidade e relacionamentos. Há o gay, a lésbica, o bissexual, o heterossexual, o jovem, o velho, o romântico, o compulsivo sexual... Todo este caleidoscópio está presente em um ambiente que é um misto de cabaré, clube, bordel, festa e consultório terapêutico chamado Sortbus. É neste ambiente que todos se despem de suas máscaras e extravasam suas fantasias e libertam-se de seus dramas e preconceitos.

Com relação às cenas de sexo o diretor John Cameron Mitchel explica: "Antigamente, quando não se podia mostrar cenas de sexo nos filmes, diretores como Alfred Hitchcock tinha metáforas para o sexo (trens entrando em túneis, etc). quando se pode mostrar cenas de sexo mais realistas, o sexo por si só pode ser uma metáfora para para outros aspectos da vida dos personagens. A forma com que as pessoas se expressam sexualmente podem dizer muito sobre quem são. Algumas pessoas me perguntam, 'Você não poderia ter contado a mesma estória sem a ser explícito?'. Eles não me perguntam se eu poderia ter feito Hedwig sem as canções. Por que não permitir o uso de cada cor da palheta de cores?"

Direção: John Cameron Mitchel
Ano: 2006
102 minutos