O que fazer quando um amor devastador é proibido? Como lidar com tradições que cultivamos e respeitamos desde a infância? Até que ponto podemos chegar para estarmos próximos da pessoa amada? Estas são algumas das questões levantadas pelo filme peruano CONTRACORRIENTE, do cineasta Javier Fuentes-Leon. Desde o início da comovente estória somos tomados pela inesperada situação de um amor secreto, que vai contra a aceitação de um pequeno povoado na costa peruana.
No vilarejo habitado por um povo que leva uma vida simples e ligado a suas tradições, vive Miguel (Christian Mercado), um dos muitos pescadores da região. Casado com Marieta (Tatiana Astengo), grávida de sete meses, o homem viril, mas com sua sensibilidade e sentimentos guardados, se vê envolvido pelos carinhos e atenção dados por Santiago (Manolo Cardona), um pintor que por ali se instala. O inevitável romance dos dois é mantido em segredo, mas observado por olhares suspeitos. Santiago parece ter encontrado o verdadeiro amor de sua vida, assim como o próprio Miguel que luta para manter seu segredo e sua paixão. Após a inusitada morte de Santiago, o homem simples vê então uma forma de continuar com esta relação sem ter que se preocupar demasiado com os comentários alheios. Miguel finalmente pode desfrutar do amor de Santiago incondicionalmente, desta vez em espírito, pois o falecido Santiago está sempre presente e próximo a seu amado. Seu grande dilema está em deixar que seu amado se vá quebrando uma promessa feita ou manter-se fiel as tradições de seu povo, o que pode lhe custar o fim de seu casamento e o abandono de Marieta e seu filho recém nascido.
A estória bem roteirizada e corretamente dirigida, conta com uma fotografia de encher os olhos, não só pela beleza do lugar, mas pelas tomadas bem cuidadas em planos que não distraem a atenção do enredo. Tudo tem seu papel e os cenários e imagens também são atores coadjuvantes, são testemunhas da bela, porém curta trajetória de amor entre estes dois homens. Em nenhum momento a produção parece ter perdido a mão, quer seja no roteiro permeado por surpresas em uma estória bem contada, n a atuação bem dirigida de seus protagonistas, ou nas belas imagens que surgem e nos enchem os olhos, motivos de sobra para assistir no escurinho do cinema.
O filme internacionalmente premiado mostra ainda cenas de homofobia, ainda que suaves, quando os amigos de Miguel rejeitam sua paixão e atitudes, chegando à repulsão aberta ao até então amigo. O protagonista sofre por não ter mais o convívio de pessoas de quem gosta e luta contra o preconceito e pelo respeito de sua comunidade. O próprio ator que interpreta Miguel, o boliviano Christian Mercado, foi aconselhado a não aceitar o papel dizendo que isto poderia ser o fim de sua carreira. Ao contrário das opiniões alheias, Christian queria fazer algo que fosse desafiador, fora dos padrões do galã, do mocinho ou do machão. O personagem tem uma grande sensibilidade e não deixa de demonstrar toda sua virilidade, méritos da direção e da capacidade interpretativa do ator.
Contracorriente foi rodado na pequena cidade de Cabo Blanco, na costa peruana, assim como sua estória, poderia ter se passado em qualquer lugar do mundo. Em todo o filme não é citado onde a ação, demonstrando a intenção de seu diretor em não localizar ou regionalizar o filme para que os diferentes públicos, de variados países pudessem se identificar com a estória. Também não se levanta bandeiras políticas com o filme. É simplesmente uma bela estória de amor que poderia acontecer com qualquer casal, gay ou heterossexual. |
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